O hipogonadismo masculino é uma condição clínica caracterizada pela deficiência de testosterona associada a sinais e sintomas clínicos. Afeta cerca de 2-6% dos homens entre 40-79 anos, com prevalência aumentando significativamente com a idade — a testosterona total diminui em média 1-2% ao ano após os 30 anos.
É fundamental diferenciar o hipogonadismo do declínio fisiológico normal da testosterona com a idade. O diagnóstico exige a combinação de sintomas clínicos (diminuição da libido, disfunção erétil, fadiga, perda muscular) com confirmação laboratorial (testosterona total <300 ng/dL em duas dosagens matinais). A reposição de testosterona (TRT) pode melhorar significativamente a qualidade de vida quando bem indicada, mas requer acompanhamento médico rigoroso.
Sinais e Sintomas
Os sintomas do hipogonadismo são inespecíficos e podem se sobrepor a outras condições. A presença de múltiplos sintomas associados reforça a suspeita diagnóstica.
Diminuição da libido
Redução do desejo sexual é o sintoma mais específico e frequente do hipogonadismo.
Disfunção erétil
Dificuldade em obter ou manter ereções, especialmente as ereções matinais.
Fadiga e perda de energia
Cansaço desproporcional ao esforço, perda de motivação e sensação de 'esgotamento'.
Perda de massa muscular
Redução da força e massa muscular, aumento da gordura corporal, especialmente abdominal.
Alterações cognitivas e humor
Dificuldade de concentração, irritabilidade, humor deprimido, perda de autoconfiança.
Osteoporose
Redução da densidade mineral óssea com risco aumentado de fraturas.
Distúrbios do sono
Insônia, sono não reparador, ondas de calor e sudorese noturna.
Redução dos pelos corporais
Diminuição dos pelos faciais e corporais, pele mais fina.
Diagnóstico
Avaliação Clínica
Anamnese detalhada dos sintomas (questionário ADAM), exame físico (volume testicular, distribuição de gordura, ginecomastia, pelos). Excluir causas secundárias: depressão, hipotireoidismo, apneia do sono, uso de opioides.
Dosagem Hormonal
Testosterona total em jejum, pela manhã (8-10h), em duas ocasiões separadas. Se TT entre 200-400 ng/dL: dosar testosterona livre calculada e SHBG. Valores: TT <300 ng/dL ou TL <6,5 ng/dL confirmam deficiência bioquímica (EAU 2025).
Diferenciação Etiológica
LH e FSH: elevados = hipogonadismo primário (testicular). Baixos/normais = hipogonadismo secundário (hipotálamo-hipofisário) → investigar prolactina, RNM de sela túrcica. Cariótipo se suspeita de Klinefelter.
Avaliação Pré-TRT
PSA e toque retal (excluir câncer de próstata). Hematócrito basal. Perfil lipídico e glicemia. Densitometria óssea se indicada. Avaliação cardiovascular. Discussão sobre fertilidade (TRT suprime espermatogênese).
Opções de Reposição de Testosterona
A escolha da formulação depende da preferência do paciente, custo, conveniência e perfil farmacocinético desejado.
Gel Transdérmico
DiáriaAplicação diária na pele (ombros, braços ou abdome). Mantém níveis estáveis de testosterona ao longo do dia.
Injeção Intramuscular (Cipionato/Enantato)
Semanal ou quinzenalInjeções intramusculares a cada 1-2 semanas. Forma mais utilizada no Brasil pela praticidade e custo.
Undecanoato de Testosterona (Nebido®)
A cada 10-14 semanasInjeção intramuscular de longa duração a cada 10-14 semanas. Mantém níveis mais estáveis que as formulações de curta duração.
Pellets Subcutâneos (Implante)
A cada 4-6 mesesPellets de testosterona cristalina implantados sob a pele (glúteo ou abdome) a cada 4-6 meses.
Contraindicações à TRT
Nota sobre fertilidade: A TRT exógena suprime o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, reduzindo drasticamente a produção de espermatozoides. Para homens que desejam fertilidade, alternativas como clomifeno, hCG ou enobosarm devem ser consideradas.
Monitoramento Durante a TRT
| Exame | Periodicidade | Alvo / Ação |
|---|---|---|
| Testosterona total | 3, 6 e 12 meses, depois anual | Manter entre 400-700 ng/dL |
| Hematócrito / Hemoglobina | 3, 6 e 12 meses, depois anual | Hematócrito <54% — se >54%, reduzir dose ou suspender |
| PSA | 3, 6 e 12 meses, depois anual | Aumento >1,4 ng/mL em 12 meses → investigar |
| Perfil lipídico | Anual | Monitorar colesterol e triglicerídeos |
| Glicemia / HbA1c | Anual | Monitorar resistência insulínica |
| Densitometria óssea | A cada 1-2 anos (se osteoporose) | Melhora da DMO esperada com TRT |
| Sintomas e questionários | A cada consulta | ADAM, IIEF, IPSS |
Benefícios Esperados da TRT
Referências
- Dohle GR, et al. EAU Guidelines on Male Hypogonadism. European Association of Urology, 2025.
- Mulhall JP, et al. AUA Guideline: Evaluation and Management of Testosterone Deficiency. American Urological Association, 2024.
- Partin AW, et al. Campbell-Walsh-Wein Urology, 13th Edition. Elsevier, 2024. Chapters 69-72.
- Bhasin S, et al. Testosterone Therapy in Men with Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744.
- Lincoff AM, et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy (TRAVERSE). N Engl J Med. 2023;389(2):107-117.
- Snyder PJ, et al. Effects of Testosterone Treatment in Older Men (TTrials). N Engl J Med. 2016;374(7):611-624.
- Corona G, et al. Testosterone supplementation and body composition: results from a meta-analysis. Eur J Endocrinol. 2020;183(3):R103-R116.
