
O Que é a Doença de Peyronie?
A Doença de Peyronie (DP) é uma condição adquirida caracterizada pela formação de uma placa fibrótica na túnica albugínea do pênis, resultando em curvatura peniana, dor durante a ereção, possível encurtamento do pênis e, frequentemente, disfunção erétil e sofrimento psicológico significativo.
A prevalência varia de 0,7% a 20,3% dependendo da metodologia e população estudada, com incidência de 19,6-23 casos por 100.000 homens/ano. A idade típica de apresentação é entre 50-60 anos, embora possa ocorrer em homens mais jovens (1,5-16,9% dos casos em menores de 40 anos). Estudos recentes sugerem que a doença é significativamente subdiagnosticada.
O mecanismo mais aceito envolve microtrauma repetitivo durante a atividade sexual, desencadeando uma cascata inflamatória com deposição excessiva de colágeno na túnica albugínea. A placa resultante reduz a elasticidade local, causando curvatura durante a ereção. A DP faz parte do espectro das doenças fibromatosas, com associação frequente à contratura de Dupuytren (mãos) e doença de Ledderhose (pés).
0,7-20%
Prevalência estimada
50-60
Idade típica (anos)
30-70%
Associação com DE
10-40%
Associação com Dupuytren
Fases da Doença
Distinguir entre fase aguda e crônica é fundamental — as opções de tratamento são diferentes em cada fase.
Fase Aguda (Inflamatória)
6-18 meses após início dos sintomas
- Dor peniana durante a ereção (sintoma definidor)
- Curvatura em evolução progressiva
- Placa em formação — pode não ser palpável inicialmente
- Possível aparecimento de novas deformidades
Conduta: Foco em controle da dor, prevenção de progressão. Tratamento conservador é a regra. Cirurgia NÃO indicada.
Fase Crônica (Estável)
Após estabilização: ≥ 3 meses sem dor e sem mudança na curvatura
- Dor geralmente resolvida ou mínima
- Curvatura estabilizada (não muda mais)
- Placa palpável, podendo estar calcificada
- Disfunção erétil pode estar presente (30-70%)
Conduta: Opções de tratamento intralesional (CCH) ou cirúrgico para curvaturas funcionalmente significativas.
Investigação Diagnóstica
Avaliação sistemática em 4 etapas — EAU Guidelines 2025
História Clínica Detalhada
Recomendação Forte — EAU 2025Anamnese completa incluindo início e duração dos sintomas, presença de dor, grau de deformidade, função erétil e impacto na vida sexual.
- Duração dos sintomas e evolução temporal
- Presença e intensidade da dor na ereção
- Mudanças recentes na curvatura (ativa vs. estável)
- Função erétil basal (IIEF-5 ou SHIM)
- Impacto psicossocial e na relação conjugal
- Questionário PDQ (Peyronie's Disease Questionnaire)
Exame Físico
Recomendação Forte — EAU 2025Avaliação genital completa com palpação do pênis e pesquisa de doenças fibromatosas associadas.
- Palpação da placa: localização, tamanho, consistência
- Medida do comprimento peniano (esticado)
- Pesquisa de Dupuytren (mãos) e Ledderhose (pés)
- Avaliação do prepúcio e meato uretral
- Nota: tamanho da placa NÃO se correlaciona com grau de curvatura
Avaliação Objetiva da Curvatura
Recomendação Forte — EAU 2025Documentação objetiva do grau e direção da curvatura, essencial para planejamento terapêutico.
- Auto-fotografia em ereção (método mais prático)
- Teste com dispositivo de vácuo (VED)
- Injeção intracavernosa (método mais preciso)
- Documentar: grau, direção (dorsal, ventral, lateral), deformidade em ampulheta
Avaliação da Função Erétil
Recomendação Forte — EAU 2025Fundamental para a escolha terapêutica. Disfunção erétil coexiste em 30-70% dos pacientes.
- Questionário IIEF-5 (International Index of Erectile Function)
- US Doppler peniano: indicado se cirurgia com enxerto planejada
- Avaliar resposta a iPDE5 (sildenafila, tadalafila)
- DE vascular vs. psicogênica vs. mista
Tratamento Conservador
Opções não cirúrgicas baseadas em evidências — EAU 2025 e AUA
Terapia Oral
Pentoxifilina
Mecanismo: Inibidor de PDE, anti-inflamatório e antifibrótico
Indicação: Fase aguda — pode reduzir progressão da placa e dor
EAU 2025
Pode ser oferecida na fase aguda (Grau B, NE 2)
AUA
Pode oferecer (Condicional, Grau C)
Vitamina E
Mecanismo: Antioxidante
Indicação: Historicamente utilizada, sem evidência de eficácia
EAU 2025
Não recomendada (Grau C, NE 1)
AUA
Não deve oferecer (Forte, Grau C)
Potaba (KPAB)
Mecanismo: Propriedades antifibróticas
Indicação: Historicamente utilizada, evidência limitada
EAU 2025
Não recomendada (Grau C, NE 1)
AUA
Não deve oferecer (Forte, Grau C)
Colchicina
Mecanismo: Anti-inflamatório e antifibrótico
Indicação: Historicamente utilizada, evidência limitada
EAU 2025
Não recomendada (Grau C, NE 2)
AUA
Não deve oferecer (Forte, Grau C)
Injeções Intralesionais
Colagenase Clostridium Histolyticum (CCH / Xiaflex)
Mecanismo: Quebra o colágeno da placa fibrótica
Indicação: Fase crônica estável, curvatura 30-90°, placa palpável, função erétil preservada
EAU 2025
Deve ser oferecida (Grau A, NE 1)
AUA
Deve oferecer (Forte, Grau B)
- Protocolo: até 4 ciclos de 2 injeções (8 injeções no total)
- Modelagem peniana entre os ciclos
- Redução média de curvatura: 17-34%
- Contraindicações: fase aguda, placas calcificadas, curvatura dorsal com risco uretral
Verapamil Intralesional
Mecanismo: Bloqueador de canal de cálcio — altera metabolismo fibroblástico
Indicação: Fases aguda e crônica
EAU 2025
Pode ser considerado (Grau B, NE 2)
AUA
Pode oferecer (Condicional, Grau C)
Interferon Alfa-2b
Mecanismo: Efeitos antifibróticos e imunomoduladores
Indicação: Fases aguda e crônica
EAU 2025
Pode ser considerado (Grau B, NE 2)
AUA
Pode oferecer (Condicional, Grau C)
Terapias Mecânicas e Adjuvantes
Terapia de Tração Peniana (PTT)
Mecanismo: Estiramento mecânico para remodelação da túnica albugínea
Indicação: Fase crônica — isolada ou adjuvante ao CCH
EAU 2025
Deve ser oferecida na fase crônica, especialmente com CCH (Grau B, NE 2)
AUA
Pode oferecer (Condicional, Grau C)
Ondas de Choque (Li-ESWT)
Mecanismo: Microtrauma, angiogênese, modificação do colágeno
Indicação: Apenas para DOR associada à DP. NÃO indicada para curvatura.
EAU 2025
Para dor: pode ser considerada (Grau A, NE 1). Para curvatura: NÃO recomendada (Grau C)
AUA
Para curvatura: não deve oferecer (Forte, Grau C). Para dor: pode oferecer (Condicional, Grau C)
Dispositivo de Vácuo (VED)
Mecanismo: Estiramento mecânico e promoção do fluxo sanguíneo
Indicação: Terapia adjuvante, especialmente pós-cirurgia ou com injeções intralesionais
EAU 2025
Pode ser considerado como adjuvante (Grau B, NE 3)
AUA
Pode oferecer como adjuvante (Condicional, Grau C)
Inibidores de PDE5 (Sildenafila, Tadalafila)
Mecanismo: Melhora da função erétil
Indicação: Para disfunção erétil associada à DP — NÃO trata a curvatura diretamente
EAU 2025
Deve ser oferecido para DE associada à DP (Grau A, NE 1)
AUA
Deve oferecer para DE + DP (Forte, Grau B)
Algoritmo de Decisão Cirúrgica
Pré-requisito: doença estável por ≥ 3-6 meses, curvatura funcionalmente significativa — EAU 2025 / AUA
Opções Cirúrgicas
Três abordagens principais, escolhidas conforme grau de curvatura e função erétil
Impacto Psicossocial
A Doença de Peyronie vai além da curvatura
Muitos homens com DP experimentam sofrimento emocional significativo, sintomas depressivos e dificuldades no relacionamento. O impacto psicológico é frequentemente subestimado.
54%
relatam dificuldades no relacionamento
48%
apresentam sintomas depressivos
81%
relatam impacto na autoimagem masculina
O acompanhamento psicológico e a comunicação aberta com o parceiro(a) são componentes importantes do tratamento. Não hesite em discutir esses aspectos com seu urologista.
Perguntas Frequentes
Dúvidas comuns sobre a Doença de Peyronie
Referências
- 1.Salonia A et al. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health — Penile Curvature. European Association of Urology, 2025.
- 2.Nehra A et al. Peyronie's Disease: AUA Guideline. J Urol. 2015;194(3):745-753. doi:10.1016/j.juro.2015.05.098
- 3.Ziegelmann MJ et al. Peyronie's Disease: AUA Guideline Amendment. J Urol. 2022;207(3):566-573. doi:10.1097/JU.0000000000002420
- 4.Gelbard M et al. Clinical efficacy, safety and tolerability of collagenase Clostridium histolyticum for the treatment of Peyronie disease in 2 large double-blind, randomized, placebo controlled phase 3 studies. J Urol. 2013;190(1):199-207.
- 5.Levine LA, Larsen SM. Surgery for Peyronie's disease. Asian J Androl. 2013;15(1):27-34. doi:10.1038/aja.2012.92
- 6.Ralph D et al. The management of Peyronie's disease: evidence-based 2010 guidelines. J Sex Med. 2010;7(7):2359-2374.
- 7.Mulhall JP et al. Subjective and objective analysis of the prevalence of Peyronie's disease in a population of men presenting for prostate cancer screening. J Urol. 2004;171(6 Pt 1):2350-2353.
- 8.Wein AJ, Kavoussi LR, Partin AW, Peters CA. Campbell-Walsh-Wein Urology. 13th ed. Elsevier; 2024. Chapter 73: Peyronie's Disease.
- 9.Hellstrom WJ et al. Implants, mechanical devices, and vascular surgery for erectile dysfunction. J Sex Med. 2010;7(1 Pt 2):501-523.
- 10.Chung E et al. Penile prosthesis implantation for the management of Peyronie's disease. Transl Androl Urol. 2017;6(Suppl 5):S815-S823.
