
Dr. Felipe de Bulhões
CRM-SP 202291 | Urologista | TCBC
O gap da saúde masculina: um problema cultural
Existe uma assimetria preocupante na saúde brasileira. Enquanto as mulheres são orientadas desde a adolescência a procurar o ginecologista — para acompanhamento menstrual, orientação contraceptiva, prevenção de doenças e check-ups regulares — os homens crescem sem um médico de referência equivalente. O resultado é alarmante: segundo dados do IBGE e do Ministério da Saúde, os homens brasileiros vivem em média 7 anos menos que as mulheres e são responsáveis por 60% das mortes prematuras (antes dos 70 anos).
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) reconhecem que essa diferença não é biológica — é comportamental e cultural. O homem não foi educado a cuidar preventivamente da sua saúde.
O paralelo com a ginecologia: uma lição a aprender
Quando uma menina entra na puberdade, a família naturalmente a encaminha ao ginecologista. Esse profissional a acompanhará por toda a vida, cuidando de:
- Desenvolvimento puberal e ciclo menstrual
- Orientação contraceptiva e saúde sexual
- Prevenção de ISTs e câncer de colo uterino
- Gestação e menopausa
- Rastreamento de câncer de mama
E o menino? Quem cuida dele quando sai do pediatra?
Na maioria dos casos, ninguém. O adolescente masculino fica em um "limbo médico" — sem acompanhamento regular até que algum problema grave o force a procurar ajuda, muitas vezes décadas depois. Essa lacuna tem consequências sérias.
O urologista em cada fase da vida masculina
Adolescência (12-18 anos)
O urologista pode e deve ser consultado já na adolescência para:
- Avaliação do desenvolvimento puberal — identificar atrasos ou alterações hormonais
- Varicocele — presente em até 15% dos adolescentes, pode comprometer a fertilidade futura se não tratada
- Fimose — avaliação da necessidade de postectomia
- Criptorquidia — testículos que não desceram adequadamente
- Orientação sobre HPV — vacinação e prevenção de verrugas genitais e câncer
- Torção testicular — educação sobre sinais de alerta (emergência urológica)
- Orientação sexual — dúvidas sobre desenvolvimento, ejaculação e saúde sexual
Referência: A EAU Paediatric Urology Guidelines (2025) recomenda acompanhamento urológico para varicocele em adolescentes com alteração do volume testicular, e a SBU orienta avaliação urológica na puberdade para rastreamento de condições congênitas.
Adulto jovem (18-35 anos)
Fase frequentemente negligenciada, mas com demandas urológicas importantes:
- Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) — HPV, clamídia, gonorreia, herpes
- Infertilidade masculina — responsável por 40-50% dos casos de infertilidade do casal
- Dor testicular crônica — investigação de epididimite, varicocele, cistos
- Cálculos renais — pico de incidência entre 20-40 anos
- Infecções urinárias — embora menos comuns em homens, quando ocorrem exigem investigação
- Saúde sexual — ejaculação precoce, curvatura peniana (doença de Peyronie)
- Planejamento familiar — vasectomia como método contraceptivo definitivo
Referência: Segundo a AUA Male Infertility Guidelines (2024), todo homem em casal com dificuldade para conceber deve ser avaliado por urologista, pois o fator masculino está presente em metade dos casos.
Meia-idade (35-55 anos)
Período em que muitas condições começam a se manifestar:
- Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) — sintomas urinários progressivos
- Disfunção erétil — pode ser o primeiro sinal de doença cardiovascular
- Hipogonadismo (queda de testosterona) — fadiga, perda de libido, ganho de peso
- Síndrome metabólica — relação direta com saúde urológica e andrológica
- Rastreamento de câncer de próstata — início conforme fatores de risco
- Cálculos renais recorrentes — estudo metabólico e prevenção
Referência: A EAU Guidelines on Male Hypogonadism (2025) destaca que a deficiência de testosterona afeta 2-6% dos homens entre 40-79 anos e está associada a aumento do risco cardiovascular, diabetes tipo 2 e osteoporose.
Maturidade (55+ anos)
Fase que exige acompanhamento mais frequente:
- Câncer de próstata — rastreamento ativo e vigilância
- HPB avançada — opções cirúrgicas modernas (HoLEP, ThuLEP, Rezum)
- Incontinência urinária — avaliação e tratamento
- Disfunção erétil — novas opções terapêuticas
- Bexiga hiperativa — tratamento medicamentoso e procedimentos
- Câncer de bexiga e rim — rastreamento em grupos de risco
Os números que comprovam a urgência
| Dado | Fonte |
|---|---|
| Homens vivem em média 7 anos menos que mulheres no Brasil | IBGE, 2023 |
| 60% das mortes prematuras são de homens | Ministério da Saúde / PNAISH |
| 59% dos homens não visitam o urologista regularmente | SBU, 2025 |
| 46% só procuram o médico quando têm sintomas | SBU, Novembro Azul 2025 |
| Câncer de próstata em jovens (<49 anos) cresceu 32% | Ministério da Saúde, 2024 |
| 40-50% da infertilidade do casal tem fator masculino | AUA Guidelines, 2024 |
A mudança começa agora
Precisamos mudar a cultura da saúde masculina no Brasil. Assim como nenhuma mulher espera ter um problema ginecológico para procurar seu ginecologista, nenhum homem deveria esperar os 40 anos — ou pior, esperar sintomas — para conhecer seu urologista.
O urologista é o médico do homem. Não apenas o "médico da próstata", mas o especialista que acompanha a saúde masculina em todas as suas dimensões: urinária, sexual, reprodutiva e hormonal.
O que fazer agora?
- Se você tem entre 12-18 anos (ou é pai de um adolescente): agende uma primeira avaliação urológica. É simples, rápido e pode prevenir problemas futuros.
- Se você tem entre 18-35 anos: não espere sintomas. Faça um check-up urológico, especialmente se tem vida sexual ativa ou planeja ter filhos.
- Se você tem 35+ anos: estabeleça um acompanhamento regular. A prevenção é o melhor investimento em qualidade de vida.
- Se você tem 50+ anos: o rastreamento de câncer de próstata é fundamental. Não deixe o preconceito atrapalhar sua saúde.
O melhor momento para começar a cuidar da sua saúde foi ontem. O segundo melhor é hoje.
Referências
- IBGE — Tábua de Mortalidade 2023. Expectativa de vida por sexo no Brasil.
- Ministério da Saúde — Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), 2009/2024.
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) — Campanha Novembro Azul 2025: Pesquisa sobre hábitos de saúde masculina.
- EAU Guidelines on Paediatric Urology — European Association of Urology, 2025.
- EAU Guidelines on Male Hypogonadism — European Association of Urology, 2025.
- AUA Guidelines on Male Infertility — American Urological Association, 2024.
- Agência Brasil — Câncer de próstata: atendimento aumenta 32% em homens com até 49 anos. Novembro de 2025.
- Campbell-Walsh-Wein Urology, 13th Edition — Chapter 1: Evaluation of the Urologic Patient.
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