
Dr. Felipe de Bulhões
CRM-SP 202291 | Urologista | TCBC
PSA e Rastreamento do Câncer de Próstata: O Que Mudou em 2026
O câncer de próstata continua sendo o tumor maligno mais frequente entre homens no Brasil — excluindo o câncer de pele não melanoma. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima mais de 71 mil novos casos por ano no triênio 2023-2025, e em 2023 foram registrados 17.093 óbitos pela doença. Nos Estados Unidos, as estatísticas de 2026 mostram tendência semelhante de alta incidência.
A boa notícia é que, quando detectado precocemente, o câncer de próstata apresenta taxas de cura superiores a 90%. Por isso, o rastreamento adequado — baseado no exame de PSA (Antígeno Prostático Específico) — é uma das ferramentas mais poderosas da urologia preventiva.
Em fevereiro de 2026, a American Urological Association (AUA) e a Society of Urologic Oncology (SUO) publicaram uma atualização importante de suas diretrizes de detecção precoce do câncer de próstata. Este artigo resume as principais mudanças e o que elas significam para você.
O que é o PSA?
O PSA (Prostate-Specific Antigen) é uma proteína produzida exclusivamente pela próstata. Seu nível no sangue pode estar elevado em diversas condições:
| Condição | PSA pode estar elevado? |
|---|---|
| Câncer de próstata | Sim — principal indicação de investigação |
| Hiperplasia prostática benigna (HPB) | Sim — aumento benigno da próstata eleva o PSA |
| Prostatite (infecção/inflamação) | Sim — pode causar elevações transitórias |
| Manipulação prostática recente | Sim — toque retal, biópsia, ejaculação recente |
| Uso de finasterida/dutasterida | Reduz o PSA em ~50% — necessário multiplicar por 2 |
Por isso, o PSA isolado não é diagnóstico de câncer — ele é uma ferramenta de rastreamento que, quando alterada, indica a necessidade de investigação adicional.
Quando iniciar o rastreamento? As novas recomendações AUA/SUO 2026
A atualização de 2026 da AUA/SUO reforça a abordagem de rastreamento estratificado por risco, com as seguintes recomendações principais:
Idade para iniciar
| Grupo de Risco | Idade para Iniciar | Intervalo de Rastreamento |
|---|---|---|
| Risco médio | 45-50 anos | A cada 2-4 anos (se PSA < 1 ng/mL) |
| Risco aumentado (negros, história familiar) | 40-45 anos | Individualizado |
| Alto risco (BRCA1/BRCA2) | 40 anos | A cada 2 anos |
PSA basal como guia
Um conceito fundamental reforçado pela guideline é o PSA basal (baseline PSA). Homens que realizam o primeiro PSA entre 45-50 anos e apresentam PSA < 1 ng/mL têm risco muito baixo de desenvolver câncer de próstata clinicamente significativo nas próximas décadas. Para esses pacientes, o intervalo de rastreamento pode ser estendido para cada 4 anos.
Por outro lado, homens com PSA basal > 1,5-3 ng/mL na mesma faixa etária merecem acompanhamento mais frequente e podem se beneficiar de ferramentas adicionais.
Quando parar o rastreamento?
A AUA/SUO 2026 recomenda que o rastreamento seja individualizado após os 70 anos, levando em consideração a expectativa de vida e as comorbidades do paciente. Homens com expectativa de vida inferior a 10-15 anos provavelmente não se beneficiam do rastreamento.
O papel da ressonância magnética (RM) multiparamétrica
Uma das mudanças mais significativas nos últimos anos — e reforçada pela AUA/SUO 2026 — é o papel crescente da ressonância magnética multiparamétrica da próstata (RMmp) antes da biópsia.
Estudos como o PRECISION Trial e o MRI-FIRST demonstraram que a RM antes da biópsia:
- Aumenta a detecção de cânceres clinicamente significativos (Gleason ≥ 7)
- Reduz a detecção de cânceres indolentes (Gleason 6) — evitando biópsias e tratamentos desnecessários
- Permite biópsia dirigida (targeted biopsy) para lesões suspeitas classificadas como PI-RADS ≥ 3
A guideline AUA/SUO 2026 atualizou a força da evidência para o uso de RM em pacientes virgens de biópsia (biopsy-naïve), reconhecendo que a evidência é agora mais robusta.
Classificação PI-RADS
| PI-RADS | Significado | Conduta Sugerida |
|---|---|---|
| 1-2 | Muito baixa/baixa probabilidade de câncer significativo | Acompanhamento com PSA |
| 3 | Probabilidade intermediária | Discussão individualizada — biópsia pode ser considerada |
| 4-5 | Alta/muito alta probabilidade | Biópsia dirigida + sistemática recomendada |
Biomarcadores: além do PSA
A AUA/SUO 2026 também atualizou suas recomendações sobre biomarcadores que podem auxiliar na decisão de biópsia, especialmente em cenários de PSA na "zona cinzenta" (4-10 ng/mL):
| Biomarcador | Tipo | Utilidade Principal |
|---|---|---|
| PSA livre / PSA total | Sangue | Diferencia HPB de câncer (PSA livre < 15% sugere câncer) |
| PHI (Prostate Health Index) | Sangue | Combina PSA total, livre e [-2]proPSA — melhor acurácia |
| 4Kscore | Sangue | Prediz risco de câncer agressivo |
| PCA3 | Urina | Específico para câncer de próstata — útil em re-biópsia |
| SelectMDx | Urina | Prediz risco de Gleason ≥ 7 na biópsia |
| ExoDx (EPI) | Urina | Exossomos urinários — prediz câncer de alto grau |
| ConfirmMDx | Tecido | Epigenética em biópsia negativa — prediz câncer oculto |
Esses biomarcadores não substituem o PSA, mas podem ajudar a refinar a indicação de biópsia e reduzir procedimentos desnecessários.
Biópsia de próstata: o que mudou?
A guideline AUA/SUO 2026 também trouxe atualizações sobre a técnica de biópsia:
Via transperineal vs. transretal
A biópsia transperineal (pela pele do períneo) vem ganhando espaço sobre a via transretal tradicional, com vantagens importantes:
- Menor risco de infecção — não atravessa o reto, eliminando o risco de sepse por bactérias intestinais
- Melhor amostragem da zona anterior da próstata
- Pode ser realizada com anestesia local em consultório
A AUA/SUO 2026 reconhece a via transperineal como uma alternativa segura e eficaz, com tendência crescente de adoção.
Biópsia dirigida + sistemática
Para pacientes com RM positiva (PI-RADS ≥ 3), a recomendação é realizar biópsia dirigida à lesão + biópsia sistemática (12 fragmentos). Essa combinação maximiza a detecção de cânceres significativos.
ASAP (Atypical Small Acinar Proliferation)
A guideline revisou as recomendações para pacientes com resultado de ASAP na biópsia — uma condição que indica células atípicas, mas sem critérios suficientes para diagnóstico de câncer. A recomendação atualizada é de re-biópsia dirigida, preferencialmente com RM prévia.
Comparação entre as principais guidelines internacionais
| Aspecto | AUA/SUO 2026 | EAU 2025 | SBU (Brasil) |
|---|---|---|---|
| Idade para iniciar | 45-50 anos (risco médio) | 50 anos (ou 45 se risco elevado) | 50 anos (ou 45 se negro/história familiar) |
| Intervalo | 2-4 anos (baseado no PSA) | 2 anos (se PSA > 1 ng/mL aos 40-50) | Anual |
| RM antes da biópsia | Recomendada (evidência atualizada) | Fortemente recomendada | Recomendada |
| Via de biópsia | Transperineal ganhando espaço | Transperineal preferida | Transretal ainda predominante |
| Biomarcadores | Atualizados (PHI, 4K, PCA3, SelectMDx) | Mencionados como adjuntos | Limitados na prática |
O que isso significa para você?
Se você é homem e tem 45 anos ou mais (ou 40 anos com fatores de risco), converse com seu urologista sobre o rastreamento do câncer de próstata. Os pontos-chave são:
- O PSA é uma ferramenta valiosa quando usado de forma inteligente e estratificada por risco
- O rastreamento salva vidas — o estudo ERSPC demonstrou redução de 20% na mortalidade por câncer de próstata com rastreamento baseado em PSA
- A ressonância magnética antes da biópsia é cada vez mais importante para evitar procedimentos desnecessários
- Novos biomarcadores podem ajudar a refinar a decisão de biópsia em casos duvidosos
- A decisão deve ser compartilhada entre médico e paciente, considerando riscos e benefícios individuais
Quando procurar o urologista?
Além do rastreamento de rotina, procure avaliação urológica se apresentar:
- Dificuldade para urinar ou jato urinário fraco
- Necessidade de urinar com frequência, especialmente à noite
- Sangue na urina ou no sêmen
- Dor na região pélvica ou lombar persistente
- Disfunção erétil de início recente
Referências
- Lin DW, Carlsson S, Filson CP, et al. Updates to Early Detection of Prostate Cancer: AUA/SUO Guideline (2026). J Urol. 2026.
- Siegel RL, et al. Cancer statistics, 2026. CA Cancer J Clin. 2026;76(1):e70043.
- Hugosson J, et al. ERSPC: A 16-yr follow-up of the European randomized study of screening for prostate cancer. Eur Urol. 2019;76(1):43-51.
- Kasivisvanathan V, et al. MRI-Targeted or Standard Biopsy for Prostate-Cancer Diagnosis (PRECISION Trial). N Engl J Med. 2018;378(19):1767-1777.
- EAU Guidelines on Prostate Cancer — European Association of Urology, 2025.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023-2025: Incidência de Câncer no Brasil.
- Cooperberg MR. Updates to Early Detection of Prostate Cancer: AUA/SUO Guideline (2026): Sound Science, Soft Power. J Urol. 2026.
- Campbell-Walsh-Wein Urology, 13th Edition — Chapter on Prostate Cancer. Elsevier, 2024.
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